terça-feira, 25 de novembro de 2014

Poema em linha reta de Fernando Pessoa com seu heterônimo Álvaro de Campos: mais atual impossível

Poema em linha reta
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado
[sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida…
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

De Fernando Pessoa,  com o heterônimo Álvaro de Campos, o poema transcende e se faz atual na crítica às pessoas que escondem falhas e expõe apenas êxitos.
Se a indignação do começo do século XX foi inspiração, o que dizer do momento atual?
O virtual se torna a representação perfeita do que gostaríamos de ser e ter. O mais está em ascensão... Mais amigos, mais coisas, mais felicidade, mais inteligência, mais... Mais... Mais...
Todos estão felizes, com finais de semana incríveis e festas badaladas.
Tudo perfeito!
Mas...
A busca por atenção, por curtidas, por fãs demonstra o quão frágil é a vida dessas pessoas que encontram no virtual o consolo para uma vida comum.

No ‘Poema em linha reta’, Álvaro de Campos faz um apelo, por um mundo real e verdadeiro, sem hipocrisia ou falsas aparências.
Após narrar todos os seus defeitos, interroga o leitor:
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Buscamos a transparência, a verdade, a coragem, e parafraseando o autor, estamos fartos de semideuses!
Talvez por isso, os consultórios estejam tão cheios de pessoas deprimidas, ansiosas, com medos infundados e baixa autoestima.
Chegam questionando tais semideuses e comparando tais vidas perfeitas à vida medíocre que levam.
Ora! Viver em linha reta, somente no virtual, pois na realidade cometemos erros, tropeçamos e mudamos o percurso diversas vezes.
E se o assunto está em voga nos dias atuais, continuamos os mesmos, mudamos apenas a forma que utilizamos para viver nossas aparências.
Bom, eu sou gente, eu erro, cometo falhas e aprendo com meus desacertos.

E você, é gente?


Imagem de William Medeiros www.william.com.br

4 comentários :

  1. Mais atual e verdadeiro impossível.
    Parabéns pelo post.
    Abraço.
    Andreia
    http://detransimulado.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Muito obrigada Andreia, fico feliz que tenha gostado!
      Um abraço,
      Fique em paz!

      Excluir
  2. Tão real e atual, parece que existia uma pré munição. Infelizmente o mundo virtual trás ao ser humano uma sensação de onipotência e que pode ser o SER que sempre idealizou. Parabéns Dra. Janaina que com muita sabedoria e sensatez expôs com muita inteligência seu ponto de vista! abraçossssss

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Muito obrigada Silvia. Realmente a onipotência é fácil atrás de uma tela, mas na realidade tudo muda.
      Muito obrigada pela participação!
      Fique em paz!
      Abraço

      Excluir